A fisiologia do amor: como seu corpo reage quando rola a química

A fisiologia do amor: como seu corpo reage quando rola a química

O coração virou símbolo do amor. Mas a mágica, na verdade, acontece em outro órgão: o cérebro.

O coração bate mais rápido, a mão sua e a mente não para de pensar naquela pessoa. É oficial: você está apaixonado. Mas, ao contrário do que se pensa, isso não tem nada a ver com o coração, e sim, com o cérebro. Segundo a ciência, o sentimento desperta o corpo humano como uma droga — podendo até ser comparado a um vício. Isso porque ele libera doses de substâncias químicas capazes de criar sensações de euforia, conforto e prazer. 

Acontece assim: No início de um relacionamento amoroso, temos um aumento muito grande na produção de dopamina. A substância atua principalmente nos circuitos de recompensa cerebral. É a área que está relacionada a reconhecer e identificar as recompensas que a gente tem ao longo da vida. “Tem algumas regiões do cérebro que são mais atingidas. Aí o excesso [de estímulo] vai ativar comportamentos de atenção, por exemplo”, diz a neuropsicóloga da PUC-PR, Maria Clara Godoy. “É por isso que a pessoa apaixonada só tem olhos e foco para o objeto de enamoramento.”

A substância também é substância responsável por regular outras funções no organismo, como o coração acelerado e as famosas borboletas no estômago. Paralelamente a isso, ocorre um aumento da testosterona no corpo — um hormônio que regula a função sexual. “Isso mostra que a paixão está associada ao desejo. Porém, o contrário nem sempre é verdadeiro. Eu posso ter desejo sexual sem necessariamente estar apaixonado pela pessoa”, explica a especialista.

Em uma segunda fase desse processo, aquela conhecida como a fase do apego e do amor tranquilo, ainda há testosterona ativa e ocorre um aumento de outro hormônio chamado ocitocina — que está muito vinculado aos comportamentos ativos de maneira geral. “Ele contribui para fortalecer a relação e trazer a sensação de proximidade. É curioso que esse componente tem forte presença no vínculo entre mãe e filho, pois é liberado de forma excessiva durante o parto e a amamentação”, diz Godoy.

Além de tudo isso, ocorre a liberação da serotonina, responsável pela sensação de bem-estar. Em geral, esse é um hormônio que tende a se encontrar em níveis um pouco reduzidos — e sua oscilação, fazendo um paralelo com outras condições, é parecida com a de pessoas que têm transtorno obsessivo compulsivo. “Se a pessoa termina o relacionamento, seu comportamento pode ficar muito próximo de obsessão. É a fase de pensar só no ex-parceiro e reviver todas as situações que os dois passaram juntos”, conta a neuropsicóloga. “Esse equilíbrio entre esses movimentos é algo muito delicado e acontece em diferentes quantidades em cada um.”

A ciência das relações

Diversos estudos comportamentais se prestaram a entender como funciona a cascata química que o amor desencadeia no corpo. O psicólogo Arthur Aron, da Universidade Estadual de Nova York, fez dois estranhos se apaixonarem em seu laboratório a partir de 36 perguntas simples. Eles se sentam frente a frente e respondem as questões que iam se demonstrando cada vez mais pessoais. Em seguida, se olharam silenciosamente por quatro minutos. O detalhe mais fascinante do estudo é que seis meses depois eles se casaram — e todo o pessoal do laboratório foi convidado para a cerimônia. 

Para Godoy, é complicado garantir que um número X ou Y de perguntas sejam suficientes para fazer as pessoas se apaixonarem. “É claro que a gente aumenta a probabilidade ao ressaltar respostas de aspectos relevantes. Mas há outras coisas envolvidas nesse processo, como atração física, questões sociais e até financeiras.”

Outra pesquisa feita pelo psicólogo Nathan DeWall, da Universidade de Kentucky, mostrou que a dor psíquica — como a de um término — pode ser parecida com a dor física. DeWall e seus colegas deram a voluntários uma dose de paracetamol (o ingrediente ativo do Tylenol) enquanto outros tomaram um placebo. Eles tomaram o remédio pela manhã e à noite durante três semanas, período no qual também preencheram um formulário diário sobre dores psíquicas. Aqueles que tomaram o analgésico mostraram um declínio constante no sofrimento ao longo das três semanas, enquanto os controles não mostraram essa melhora.

Isso quer dizer que Tylenol alivia a dor do término? Talvez. Mas isso é ético? Maria Clara Godoy acredita que não: “aquilo que a gente sente vai nos transformando no dia a dia e vai construindo quem nós somos. Nós somos resultados das nossas experiências. Uma vez que interferimos nisso, afetamos quem podemos nos tornar e o crescimento que podemos ter”, afirma. “O contexto do amor é muito mais amplo do que somente alguns aspectos físicos ou psíquicos que delimitamos. Fazemos isso apenas para estudar mas, na verdade, a prática é muito mais complexa.”

Escrito por

Beatriz Lourenço

Repórter de Ciência.

 

Fonte: Bitniks

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