Casa Branca admite que a Rússia pode invadir a Ucrânia a qualquer momento

Casa Branca admite que a Rússia pode invadir a Ucrânia a qualquer momento
Crédito: Alexander Nemenov/AFP

A situação é classificada como "extremamente perigosa" e Casa Branca envia o secretário de Estado, Antony Blinken, a Genebra para tentar diálogo com o chanceler Serguei Lavrov

Vídeos mostrando o deslocamento de tanques e caminhões do Exército da Rússia sobre uma locomotiva e a presença de militares de Moscou na Bielorrússia sugeriam, ontem, que o alerta do governo dos Estados Unidos parecia fazer sentido. "Acreditamos que estamos em um estágio em que a Rússia pode, a qualquer momento, lançar um ataque contra a Ucrânia", declarou Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca, ao classificar a situação como "extremamente perigosa" e garantir que "nenhuma opção está descartada". Em uma insistente e quase desesperada aposta na  diplomacia, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, viajou ontem a Genebra para se reunir com o chanceler russo, Serguei Lavrov, na sexta-feira. Washington espera convencer Moscou a desescalar a tensão. O presidente Vladimir Putin deslocou mais de 100 mil soldados para a fronteira da Ucrânia.

"O que o secretário Blinken fará é destacar que existe um caminho diplomático pela frente", ressaltou Psaki. "É escolha do presidente Putin e dos russos decidir se vão sofrer graves consequências econômicas ou não." A tarefa de Blinken não será nada fácil. Ontem, a Rússia exigiu respostas "concretas" antes de continuar a discutir sobre a Ucrânia. Uma das exigências do Kremlin é impedir um avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no leste da Europa, com a incorporação de países da região. 

Em conversa telefônica, Blinken disse a Lavrov que a diplomacia é a solução para mitigar a crise. Ele ouviu do homólogo russo que Moscou aguarda um retorno imediato sobre as demandas apresentadas ao Ocidente. A Rússia teme que a Ucrânia, ex-república da extinta União Soviética, se transforme em uma espécie de base militar para forças norte-americanas e europeias. 

Petro Burkovsky, especialista da Fundação de Iniciativas Democráticas Ilko Kucheriv, em Kiev, contou à reportagem que, entre 17 e 23 de dezembro do ano passado, a entidade para a qual trabalha fez uma pesquisa de opinião pública para conhecer percepção dos ucranianos sobre um ataque russo. "Nós ouvimos 2 mil pessoas. Mais de 45% dos entrevistados disseram que se alistarão ao exército e 21% fornecerão ajuda às tropas do país. Outros 4% afirmaram que fugirão da Ucrânia", explicou.

Burkovsky acredita que uma ofensiva russa na ex-república soviética é iminente. "O próprio Kremlin não nega isso. Quanto mais a Rússia ameaça, mais os países do Ocidente reconhecem que ela deve ser dissuadida e contida. Se os russos invadirem a Ucrânia, o custo será alto. Se, em algum caso, o Kremlin decidir desescalar as tensões e reconhecer que começou a guerra de 2014, então, vejo perspectivas para a normalização gradual", acrescentou. 

Por sua vez, Anton Suslov — especialista da Escola de Análise Política (NaUKMA), em Kiev — afirmou que, por enfrentarem oito anos de guerra, os ucranianos estão "acostumados" a novas tensões e tréguas. "No entanto, os cidadãos se preocupam com a possibilidade de uma agressão completa. Outra sondagem recente indica que 49% dos ucranianos consideram o acúmulo de tropas russas na fronteira com a Ucrânia como um perigo de intrusão russa", lembrou, por e-mail. No caso de uma invasão, Suslov prevê milhares de baixas do lado russo e o agravamento de tensões internas. "Também veríamos sanções políticas e econômicas mais rígidas contra Moscou. Uma escalada generalizada na Europa não ocorreria por um motivo: a Rússia não está pronta para lutar contra a Otan", disse. 

Brasileiros

A reportagem conversou com brasileiros que vivem na Ucrânia. Natural de São Paulo, a relações-públicas Fernanda Hilario da Silva, 29 anos, mora em Kiev há um ano e meio. "Em caso de invasão da Rússia, eu e meu marido pretendemos sair do país por terra. Estamos montando uma mala com documentos e dinheiro. Temos dois cães e estamos organizando a documentação para levá-los conosco. A intenção é ir para qualquer nação vizinha que esteja com as fronteiras abertas", desabafou. "Não entendo a ganância da Rússia em invadir a Ucrânia. O povo ucraniano não deseja ser anexado ao território russo. Tanto que houve a revolução de 2014 em torno disso. Eu só gostaria que tudo isso acabasse e todo mundo vivesse em paz."

Goiano do município de Niquelândia, Rony de Moura dos Reis, 34 anos, procura se focar na conclusão do curso de medicina, na Academia Internacional de Ecologia e Medicina de Kiev, e tenta não pensar em uma guerra. "Se precisar, retornarei para o Brasil. Os russos querem realmente a Ucrânia e usam o pretexto de que Kiev deseja fazer parte da Otan, o que colocaria armamentos do Ocidente dentro do território ucraniano. Putin quer anexar a Ucrânia, porque ela fez parte da União Soviética", disse. Ele relatou que, antes de se instalar no país, onde reside há três anos, chegou à Rússia em 16 de março de 2014 e testemunhou uma coluna de tanques se dirigindo à Crimeia. "Dois dias depois, a Rússia tomou a península." 

Eu acho...

"A Rússia pode destruir a Ucrânia, mas a um preço de rápida deterioração da estabilidade interna e da segurança. A questão é que os Estados Unidos e a União Europeia não controlam a Ucrânia. Eles não podem coagir Kiev a fazer concessões a Moscou. A Rússia sabe muito bem disso, apesar de afirmar que a Ucrânia está sob controle de Washington. Sob esse ponto de vista, Putin apenas tenta criar uma justificativa doméstica para a agressão, assim como Adolf Hilter fez em 1938, quando a Alemanha ameaçou a Tchecoslováquia."

Petro Burkovsky, especialista da Fundação de Iniciativas Democráticas Ilko Kucheriv, em Kiev

"O governo ucraniano e os serviços especiais regularmente fazem declarações sobre o acúmulo de tropas russas na fronteira. Tenho certeza de que o perigo é real. Mas, estamos em guerra com a Rússia desde 2014. É por isso que a Ucrânia está pronta para responder a uma invasão. O fornecimento de armas antitanque leves por parte do Reino Unido e a recente visita do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, comprovam que a ameaça é verdadeira e que os nossos aliados internacionais monitoram a situação e estão prontos para ações decisivas."

Fonte: Correio Braziliense

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