Com avanço da COVID-19, Tóquio vive dilema às vésperas da Olimpíada

Com avanço da COVID-19, Tóquio vive dilema às vésperas da Olimpíada
Chegada de atletas ao Aeroporto Internacional de Tóquio (Foto: AFP / Kazuhiro NOGI)

Pressionado, o governo japonês preparou rígidos protocolos para reduzir os riscos de disseminação da doença.

Tóquio se vê encurralada em meio a uma aparente contradição. O avanço acelerado da COVID-19 - que nas últimas semanas alcançou os mais altos níveis de infecção desde janeiro - fez as autoridades locais aumentarem as restrições à circulação de pessoas e decretarem estado de emergência. Ao mesmo tempo, a cidade já começou a receber milhares de atletas, treinadores, dirigentes, voluntários, patrocinadores, árbitros e jornalistas de todo o planeta para o iminente início dos Jogos Olímpicos, adiados de 2020 para este ano justamente em função do coronavírus.

Pressionado, o governo japonês preparou rígidos protocolos para reduzir os riscos de disseminação da doença, mas já enfrenta problemas e, nas próximas semanas, terá desafios sem precedentes para a realização da primeira Olimpíada da história durante uma pandemia.

A medida mais significativa contra a COVID-19 foi proibir a presença de público nas competições. Inicialmente, o veto valia apenas para os turistas. Pessoas que vivessem no Japão teriam acesso a até 10 mil ingressos por evento, a depender da capacidade da instalação olímpica.

Porém, a preocupação com a propagação do vírus em maior escala obrigou o comitê organizador e a administração pública mudarem de ideia poucos dias depois. Na última quinta-feira, a cidade-sede registrou impressionantes 1.308 novas infecções, número máximo desde os primeiros dias de janeiro, considerados um dos piores momentos da pandemia no país.

Ativista contrária à realização da Olimpíada exibe imagem do primeiro-ministro Yoshihide Suga durante marcha em Tóquio na sexta-feira (Foto: AFP / Philip FONG)

Pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), o fisiologista Bruno Gualano participou de um estudo sobre a alta incidência da doença no Campeonato Paulista de futebol deste ano.

"Nosso estudo demonstrou que a realização de eventos esportivos está associada com um grande número de infecções quando a transmissão comunitária não é controlada. Por outro lado, é preciso notar que a vacinação em massa dos atletas deve evitar surtos. Mais importante ainda seria vacinar todo o pessoal de apoio. Pesa a favor do Japão o plano de testagem, rastreio e isolamento de infectados e contactantes (algo que praticamente inexiste no Brasil)", ressaltou.

"Teremos um grande experimento natural com os Jogos, em que todos os protocolos de segurança serão postos em xeque. Do ponto de vista sanitário e científico, não dá para dizer que os riscos são desconsideráveis", alertou. 

Em meio ao avanço do vírus, 10 mil voluntários desistiram de viajar ao Japão, várias cidades se recusaram a receber atletas e o governo local retirou o revezamento da tocha olímpica das ruas para evitar aglomerações.

Mesmo com a ausência de torcedores e o rigor dos protocolos, a preocupação de moradores, autoridades e especialistas ainda é alta. Afinal, 93 mil pessoas estão credenciadas para os Jogos. Destas, cerca de 11,3 mil são atletas.

Ao todo, 93 mil pessoas estão credenciadas para os Jogos. Destas, cerca de 11,3 mil são atletas (Foto: AFP / Kazuhiro NOGI)

A estratégia da organização é limitar consideravelmente o deslocamento por Tóquio e as outras cidades que receberão eventos, colocar em prática regras rígidas sobre distanciamento social e higienização, testar frequentemente todos os envolvidos nas competições e identificar as pessoas que tiveram contato próximo com infectados.

As normas começam a valer antes do embarque e se aplicam durante toda a estadia no Japão. Pessoas provenientes de países considerados de "risco", pelos grandes níveis de contaminação ou a presença maciça de novas variantes, serão submetidas a um cronograma ainda mais intenso de exames e monitoramento.

O descumprimento dos protocolos - detalhados em documentos de 70 páginas enviados a todos os envolvidos no evento - pode gerar sanções que vão desde perda de credencial e multa até deportação.

Quem vai ao país tem de apresentar uma longa lista de documentos, que inclui os resultados de dois testes RT-PCR antes do voo e um de antígenos, realizado ao desembarcar. Todos são submetidos a exames de saliva nos três primeiros dias e devem respeitar, em acomodações oficiais, o tempo de quarentena especificado no "plano de atividades" - documento individual aprovado previamente pelo governo do Japão que detalha quais lugares da cidade podem ser visitados durante as duas semanas iniciais de estadia, período no qual o uso do transporte público é proibido.

Ao mesmo tempo de COVID-19 avança, Tóquio recebe diariamente milhares de atletas, treinadores, dirigentes, voluntários, patrocinadores, árbitros e jornalistas de todo o planeta (Foto: AFP / Kazuhiro NOGI)

Ao longo dos Jogos, novos exames são realizados periodicamente. Na entrada das instalações oficiais, há álcool para higienização das mãos e termômetros para identificar possíveis casos de febre.

O infectologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Carlos Starling crê que as restrições podem, sim, tornar o evento seguro. O pesquisador prestou consultoria à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sobre as normas que deveriam ser adotadas nas competições.

"Se forem seguidos à risca, os protocolos trarão segurança ao evento. Os japoneses têm tradição de serem obedientes. Espero que os visitantes também sejam. Este é o ponto chave: testar assintomáticos, identificar portadores e isolá-los. Esse é um recado que todos os países deveriam seguir. É uma regra básica, que foi seguida pela Nova Zelândia, que, mesmo não tendo vacinação avançada, tem um controle primoroso da pandemia. Portanto, é, sim, possível controlar", defendeu.

Mas as regras não convencem a população local. Diversas pesquisas divulgadas nas últimas semanas mostram que entre 60% e 80% dos japoneses são contrários ou se preocupam com a realização da Olimpíada por conta da possível crescente na disseminação da COVID-19.

Embora tenha conseguido controlar melhor a pandemia do que vários dos países vizinhos, o Japão ainda cambaleia no processo de vacinação. O percentual de habitantes totalmente imunizados é inferior a 18%, muito abaixo dos 70% ideais para conter a propagação de modo eficiente.

Dessa forma, a tensão cresce entre os moradores, que chegaram a ir às ruas em protesto contra os Jogos. Até o imperador Naruhito está "extremamente preocupado" com a situação, segundo a administração da casa imperial.

Protocolos à prova

Os primeiros incidentes com credenciados recém-chegados ao Japão começaram a ser reportados na última semana. Atletas da China apontaram falhas no protocolo em uma das acomodações da delegação. Nessa quinta, a organização revelou que um competidor estrangeiro e outras cinco pessoas testaram positivo para COVID-19.

Casos da doença também foram identificados no hotel que recebe parte dos atletas brasileiros em Hamamatsu, no Sudoeste de Tóquio. "Os funcionários (que testaram positivo) em momento algum tiveram contato com a nossa delegação. Desde o primeiro momento do resultado positivo, já se isolou todos os contatos próximos", explicou Ana Carolina Corte, coordenadora de serviços médicos do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

O que reduz significativamente os riscos é o fato de boa parte dos credenciados estar imunizada contra a COVID-19. "Cerca de 85% de atletas e oficiais que vão viver na Vila Olímpica e quase 100% dos membros do COI e funcionários do COI estão vacinados ou imunes. O percentual de membros vacinados da mídia internacional é entre 70% e 80%", disse o presidente do Comitê Olímpico Internacional Thomas Bach.

"Jogos da Recuperação"

Mas por que não adiar a Olimpíada novamente? O eventual cancelamento - que chegou a ser cogitado - se tornaria um episódio histórico. Os Jogos só deixaram de acontecer em três oportunidades desde 1896, todas em função das duas guerras mundiais.

Segundo especialistas, fatores políticos, econômicos e esportivos ajudam a explicar a insistência do governo japonês em realizar o evento durante a maior crise sanitária global do último século.

O primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga é o grande defensor da realização dos Jogos em 2021. Em discussões no parlamento, o governante se defendeu das críticas de boa parte da população e insistiu que nunca colocaria a Olimpíada em primeiro lugar: "Minha prioridade tem sido proteger as vidas e a saúde da população".

A oposição, porém, contra-atacou: "Infelizmente, nós temos que dizer que é impossível proteger vidas, saúde e o sustento do povo japonês e ao mesmo tempo sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos", disse o líder da oposição, Yukio Edano.

Politicamente e economicamente, a avaliação é que Suga perderia força com os correligionários caso voltasse atrás e desistisse do evento, que já se tornou o mais caro da história olímpica. Calcula-se que o Japão gastou até 26 bilhões de dólares (R$ 133 bilhões) para sediar os Jogos, muito mais que os 7,3 bilhões (R$ 37,3 bilhões) previstos inicialmente.

O comitê organizador se defende e fala em custos na casa dos 15,4 bilhões (R$ 78,8 bilhões), impulsionados justamente devido ao adiamento das competições e às mudanças operacionais causadas pela pandemia. Internamente, há uma pressão dos patrocinadores para que o cronograma seja mantido.

Cancelar também poderia ser visto publicamente como um atestado de fracasso no controle da doença. A desistência causaria um "constrangimento regional", já que a China sediou a Olimpíada em 2008, em Pequim, e, no ano que vem, receberá a edição de inverno - realizada na Coréia do Sul em 2018.

"Seria como um constrangimento regional para o Japão se eles não conseguissem realizar o evento", analisou o professor de história japonesa T.J. Pempel, em entrevista à Vox.

Os fatores esportivos também são levados em conta para a manutenção das competições. Para muitos atletas, esta pode ser a última - ou até mesmo a única - oportunidade de disputar uma Olimpíada. Há, ainda, aqueles que estão no auge físico e muito provavelmente não chegarão a Paris no mesmo nível, daqui a três anos.

Portanto, ir a Tóquio será, para muitos, a coroação de um ciclo olímpico atípico, após uma temporada em que pistas, piscinas, quadras e campos foram substituídos por salas, quartos e quintais.

"Como atleta, posso dizer que a gente passou por muita dificuldade durante esse tempo de pandemia. A gente precisou se reinventar para conseguir continuar evoluindo. Foi muito difícil. Nossa preparação olímpica foi desafiadora, a gente precisou treinar demais em casa, sempre se cuidando", disse a mineira Ana Sátila, da canoagem slalom, primeira brasileira a desembarcar em Tóquio.

"É claro que eu diria que eu quero que os Jogos aconteçam, porque sou uma atleta e estou esperando a minha vida toda por isso", afirmou a tenista japonesa Naomi Osaka, uma das grandes estrelas do evento.

"Mas eu acho que muitas coisas importantes aconteceram no último ano. Muitas coisas inesperadas aconteceram e, se isso estiver colocando pessoas em risco ou deixando as pessoas muito desconfortáveis, então definitivamente deveríamos debater o tema", completou.

Escolhida como sede em 2013, Tóquio "vende" esta edição como os "Jogos da Recuperação" japonesa após o desastre de Fukushima, que, há dez anos, padeceu com um terremoto, um tsunami e um acidente nuclear que deixaram 20 mil mortos.

O plano era repetir a Olimpíada de 1964, realizada também na capital do país e que foi um marco da reconstrução nacional depois dos bombardeios estadunidenses a Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Porém, essa imagem perdeu força com a realização de um evento durante a pandemia, sem espectadores e sob as necessárias orientações de distanciamento social dos povos, uma aparente contradição em relação aos arcos olímpicos entrelaçados.

Particularidades desta edição

1) Testagem

Atletas estão sendo testados diariamente. Demais profissionais envolvidos também cumprem cronograma regular de exames, a depender do papel desempenhado. Pessoas que contraírem COVID-19 são isoladas por 14 dias. Quem teve contato próximo com infectados é submetido a novas avaliações.

2) Distanciamento rígido

Os protocolos estabelecem um distanciamento de pelo menos dois metros em relação a atletas e um metro para outras pessoas envolvidas nos Jogos. Apertos de mão e abraços são desorientados. A máscara deve ser utilizada em todos os ambientes.

3) Veto a turistas e público nas arenas

Está proibida a entrada de estrangeiros de 159 países ao Japão (com exceção dos credenciados). Todas as competições serão realizadas sem a presença de público.

4) Monitoramento tecnológico

Quem chega ao Japão para trabalhar nos Jogos deve baixar dois aplicativos. O primeiro monitora, via GPS, os passos de todas as pessoas durante a estadia no país. O objetivo é identificar eventuais contatos próximos com quem foi diagnosticado com COVID-19. Já o segundo registra diariamente o estado de saúde dos credenciados.

5) Restrições de circulação
 

Nas primeiras duas semanas, os credenciados só podem visitar locais pré-aprovados pelo governo do Japão (em geral, as instalações oficiais dos Jogos). Só a partir do 15º dia será permitido o uso do transporte público.

TIME BRASIL CONTRA A COVID-19

Protocolo

  • Testagem diária
  • 14 dias de isolamento para casos positivos
  • Isolamento dos contatos próximos a quem testou positivo
  • Monitoramento do risco

Vacinação

  • Total de atletas: 302*
  • Vacinados com a 1ª dose: 272 (90%)
  • Vacinados com a 2ª dose: 227 (75%)
  • *Mais 18 substitutos

Equipamentos de proteção à delegação

  • 6 mil testes de antígeno
  • 68 mil máscaras descartáves
  • 2,4 mil máscaras Time Brasil
  • 400 litros de álcool líquido
  • 250 jalecos descartáveis
  • 70 óculos de proteção
  • 12,5 mil propés 

Fonte: Super Esportes

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