Premiado e comovente, novo filme da Netflix mostra como o amor de uma mãe mudou a história de um homem

Premiado e comovente, novo filme da Netflix mostra como o amor de uma mãe mudou a história de um homem
“Retrato de um Campeão” - Foto: Divulgação

Até onde pode ir o amor de uma mãe seu filho? A pergunta não é meramente retórica, uma vez que a natureza humana comporta todo o gênero de indivíduos, inclusive o de mães que abandonam filhos à própria sorte, desejando que eles lhes façam o obséquio de morrer depressa. Esse quase foi o destino de So Wa-wai.

Primeiro esportista honconguês a disputar cinco edições dos Jogos Paralímpicos, entre 1996 e 2012 — façanha que lhe rendeu uma dúzia de medalhas —, o protagonista de “Retrato de um Campeão” é, de fato, um homem que fez da superação seu ofício. Lançado em 2021, o filme do diretor sino-britânico Chi Man-wan, produzido por Sandra Kwan Yue Ng, que vive a mãe igualmente heroína do atleta, interpretado por Louis Cheung, se utiliza da premissa da criança com uma deficiência a fim de se aprofundar no quão perversa pode ser a vida, sobretudo quando não se dispõe sequer de um físico como o da maior parte das pessoas.

So Wa-wai nasceu com icterícia hemolítica, um distúrbio que provoca uma produção excessiva de glóbulos vermelhos no feto e fatalmente degringola em prejuízos para a saúde do paciente ao longo da vida. No caso de Wa-wai, a doença degringolou numa incapacidade da criança em controlar os músculos ou, “para simplificar”, como diz o obstetra que atendeu sua mãe quando do parto, numa paralisia cerebral que o impediria de realizar tarefas básicas, como se vestir ou se alimentar sem ajuda. Completamente descorçoada, a operária suporta a desventura de ter de criar um filho com limitações psicomotoras, sustentando-o com o pouco que consegue ganhar numa tecelagem até que, um conflito com o garoto, agora aos quatro anos, por causa da diabrura que começa a elaborar a primeira reviravolta do enredo, provoca nela um acesso de fúria que poderia ter redundado em tragédia. Felizmente, não é o que acontece, e mais: o episódio tem a força de uma iluminação para a personagem, que a partir de então vê em Wa-wai a vontade de se destacar que o faz tão distinto dos outros meninos da vizinhança no cortiço em que moram.

Tal como em “Rain Man” (1988), dirigido por Barry Levinson, e “Forest Gump” (1994), de Robert Zemeckis, a vida de um personagem com deficiência, é narrada de modo a enaltecer nele sua aura de homem incomum, com algo de extraordinário, palavra que a mãe de Wa-wai usa com frequência em suas recomendações ao filho. No filme de Barry Levinson, Raymond, o personagem autista de Dustin Hoffman, se presta a expor a visão de mundo e as dificuldades muito específicas de um homem com suas restrições, que passa boa parte da vida sozinho e de súbito se descobre alvo de uma disputa judicial por sua guarda, não exatamente por se preocuparem com seu estado, situação tornada ainda mais delicada com a iminência da velhice. A produção dirigida por Chi Man-wan tem alguma semelhança com a história do delirante tipo encarnado por Tom Hanks com o brilho que o ator sempre imprime a seus papéis, com a diferença de que aqui a atmosfera mítica por trás do personagem central se fundamenta em acontecimentos fartamente documentados pela história. Wa-wai de fato fez levou uma vida singular, nunca se curvando ao que poderiam esperar dele. Seu temperamento resiliente, uma das razões de seu sucesso em grande medida, aflora depois de um processo de autoconhecimento em que é forçado a tomar decisões que não pode transferir para mais ninguém, como se deve retomar a carreira, interrompida por causa das dificuldades da família, ou permanecer no subemprego que lhe paga um salário maior ao que ganha nas pistas e lhe garante alguns direitos, mas enterra seus sonhos mais doces de uma vez por todas. Algo que nem sua devotada mãe poderá fazer por ele.

Subvertendo os clichês que a vida obriga o cinema a reproduzir, “Retrato de um Campeão” é um filme que passa longe da xaropada que a indústria se habituou a liberar no mercado, mormente quando se trata de abordar minorias. A vida nunca foi fácil para ninguém, mas pode ser muito menos árdua ao se poder contar com quem nos dê aquele empurrão tão oportuno e sempre necessário, já que a corrida só pode ter um vencedor.

 

Giancarlo GaldinoPOR GIANCARLO GALDINO

 

Fonte: Revista Bula

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